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​DOC especial: Rural e 96 entram na ala da UTI Covid do Hospital São Francisco

No especial, reportagem ouve relato de profissionais e mostra a realidade do tratamento intensivo.

Por Luan de Bortoli
01/04/2021 às 09h35 | Atualizada em 02/04/2021 - 18h28


Ainda naquele que é considerado o pior momento da pandemia do coronavírus, o jornalismo das rádios Rural e 96 teve acesso à Unidade de Terapia Intensiva do Hospital São Francisco. Com autorização da direção da instituição de saúde e acompanhado de uma representante da unidade hospitalar, a reportagem pode gravar imagens internas, mostrando pacientes intubados e colheu relatos de profissionais, como enfermeira, técnica em enfermagem e médico.

O especial serve como alerta necessário, para que a população tenha o real conhecimento de até que estágio a doença pode levar um infectado. Produzido em formato de documentário, a reportagem em vídeo, que pode ser vista logo abaixo, mostra imagens cruas, reais, sem efeitos, com som ambiente, intercaladas com os depoimentos dos profissionais.

Em um ano de pandemia, o Hospital São Francisco viu seu espaço dedicado a tratar pacientes com a covid aumentar 425%, conforme dados divulgados no fim de fevereiro. Dentro desse crescimento, a unidade passou de 15 leitos de UTI Covid para 20, e de 36 leitos de enfermaria para 85. Cenário antes apenas utópico, a superlotação do hospital se tornou realidade no início de 2021.

Com o aumento acelerado de casos, a unidade viu o trabalho mais que dobrar desde fevereiro. Chegou ao ponto de dedicar quase toda a estrutura para tratar de pacientes com a doença, mas sem capacidade de ampliar ainda mais o espaço. Por isso, destinou à prefeitura o auditório para que a administração instalasse novos leitos se necessário.

Hoje, o hospital possui duas UTIs para internar pessoas acometidas pela doença. Em cada uma, são dez leitos disponíveis, completando os 20 disponíveis. Isso ocorre pelo aumento de casos e pela possível nova variante que chegou à região, acometendo mais pessoas jovens, de forma mais rápida e de maneira mais severa, conforme diz o médico responsável pela UTI Covid, Fernando Guedes.

“Estamos ainda numa fase muito difícil da doença. A incidência ainda não foi controlada. Temos vários pacientes internando todos os dias. O perfil mudou bastante com relação às primeiras ondas. Temos pacientes mais jovens, com evolução mais rápida. A recuperação é mais lenta. Acreditamos que seja a nova variante, até pelas características”, comenta.



Uma nova rotina

A rotina dos profissionais mudou. Eles precisam ficar mais tempo à disposição do hospital para atender ainda melhor aos pacientes e o aumento da demanda. Na conversa com a reportagem, além do relato de que a carga de trabalho é maior, os profissionais também revelam a tristeza ao sair do hospital e se depararem com locais em que há pessoas aglomeradas que não levam em consideração a vida do próximo.

“Sempre trabalhei, há 20 anos, na UTI, mas esse momento agora é um momento diferente, triste. A gente está cansado, exausto. A gente até trabalha 12 horas. Muitos colegas têm ainda outro trabalho, que exige deles também. A gente acaba deixando nossa família de lado. A gente faz tudo pelo paciente, mas, infelizmente, a gente acaba perdendo as pessoas, e é muito triste, a gente se emociona, a gente sofre com eles”, desabafa a técnica em enfermagem, Fernanda Marchetti.

“A comunidade em geral trata a gente muito bem. Eles tentam nos agradar de muitas maneiras. Eles fazem do nosso café da manhã, da tarde, um banquete. Eles trazem e muitas empresas também, lanches, sanduíches. A gente agradece imensamente, isso não tem preço”, completa Fernanda.



Tecnologia é aliada entre paciente e familiar

As profissionais da UTI contam ainda da dificuldade que é testemunhar a relação entre o paciente e o familiar, já que é proibido o contato e a visita entre eles. Todo dia, uma vez por dia, os médicos entram em contato com os parentes e relatam como o quadro clínico do paciente. E, nestes tempos, a tecnologia é uma aliada. Devido ao avanço da internet, hoje é possível que os dois lados se vejam por uma tela através de chamadas de vídeo, serviço realizado com prazer pela equipe da UTI.

“Tivemos um senhor que por dois dias foi evoluindo com falta de ar, dificuldade respiratório e chegou em um momento que ele solicitou para ser intubado. Ele disse que gostaria de conversar com a família. Quando é possível,a gente tensa diminuir a angustia deles. Então, fizemos uma chamada de vídeo e ele conversou com a esposa dele. E foi muito bacana, ela deu uma mensagem de esperança”, relembra a enfermeira da ala da UTI Covid, Glasia Baron.

“Uma situação que marcou, nós tínhamos uma paciente, que relatou que o filho dela ia ter a formatura. Então, ela comentou, porque nós conversamos com os pacientes, que ela tinha mandado fazer o vestido da formatura, mas evoluiu ao óbito. Então o filho veio até nós e pediu que ela fosse sepultada com o vestido. Isso emocionou a equipe toda”, conta Glasia.


Recado aos negacionistas

Em meio a tudo isso, ao cansaço, à dor, ao medo, estes profissionais que deixam de lado toda uma vida com uma família precisam lidar com o negacionismo puro, de uma parcela da população que insiste em afirmar que a Covid é invenção e que o hospital não possui internados. Para estes, o médico Fernando Gudes deixa um recado.

“Como vocês podem ver, a gente tá com UTI lotada. Não são atores aqui com ventilação mecânica. São pacientes que há duas ou três semanas estavam em casa, ou trabalhando. Existem ainda outras causas de morte. Mas neste momento a doença que mais causa morte é a covid-19. E a gente pode evitar fazendo coisas simples, como usar máscara, álcool em gel, evitar aglomeração. A gente não tá inventando nada, evitem essa idiotice de não acreditar no vírus”, finaliza ele.

Prova disso é ainda o aumento por medicação. A demanda pelas farmácias instaladas dentro do Hospital São Francisco também aumentou. Se antes era necessário abastecer as alas uma vez ao dia, agora a realidade é bem diferente. Conforme os relatos, este serviço é feito até quatro vezes ao dia.

Ainda durante a conversa com os profissionais, eles relatam que, mesmo acostumados à UTI, onde o histórico já é de pacientes graves e muitos indo a óbito, nada se compara com o atual momento. O choque em ver a funerária chegar ao local e colocar o paciente no já amplamente comentado saco de isolamento, um método orientado pela Anvisa, é um dos pontos que mais abalam o emocional de quem trabalha ali.

Veja o vídeo:
 






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