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Coronavírus

"Tinham muita vontade de viver, ninguém tá preparado", diz filha sobre morte dos pais

Casal de idosos morreu por covid com poucos dias de diferença em Concórdia.

Por Luan de Bortoli
06/04/2021 às 06h31 | Atualizada em 07/04/2021 - 11h51


O mês de março foi o mais trágico de toda a pandemia da covid-19 no Brasil. O recorde de mortes não ficou restrito aos níveis nacional e estadual. Concórdia também viu o número de óbitos subir vertiginosamente. Entre as 31 mortes do terceiro mês do ano, muito mais que estatística, estão várias histórias. E duas delas chamam a atenção. O casal José e Iracema Talin morreu vítima da doença com poucos dias de diferença – dias 3 e 24 de março.

A família não sabe como foi a contaminação, já que eles cuidavam ao máximo para evitar que os pais ficassem expostos ao vírus. Mas, para eles, a forma de contaminação é o que menos importa. Para a filha Simone Talin, o momento é de encarar e superar a dor. Em entrevista à reportagem da emissora, a cartunista concordiense relembra como eram os pais.

“O sentimento é muito forte, é uma perda que ninguém tá preparado. Nossos pais estavam bem. E de uma hora pra outra se foram. Até acostumar vai demorar muito tempo. Só quem vive consegue explicar. Eles eram os melhores pais, melhores avós. De saúde, eram saudáveis, ativos, gostavam de ajudar os filhos em pequenas tarefas. Família italiana, que era bem de expressar o sentimento”, conta.

De acordo com Simone, a contaminação foi mapeada e provavelmente ocorreu fora de casa, em um dos raros momentos que o pai saiu de casa. A família mantinha o máximo de cuidados, evitando aglomerações e fazendo as atividades de rotina externa para o casal, conforme relata Simone na entrevista.

“Eles permaneciam em casa, as saídas eram eventuais. Tem uma irmã que mora no porão, ela ia no mercado. Somos em cinco irmãs. Quando ia uma, a outra não ia. Se tem algo que a gente fazia era preservar os nossos pais. A gente tentou traçar o mapa de contaminação quando o pai faleceu. E aconteceu que toda a família se contaminou depois do falecimento do pai. Então, não foi na família que ele pegou. Então de repente se ele foi no mercadinho, não sabemos. Onde foi é o que menos importa”, pontua. 

O casal e a família esperavam pela vacina. Ele tinha 75 anos, e ela, 74. Estavam prestes a receberem a primeira dose em busca da imunização. No entanto, a demora foi grande e isso não ocorreu. Simone lamenta e critica que o governo federal tenha demorado para adquirir as doses 

“Eles tinham muita vontade de viver ainda. É a gestão nacional. Infelizmente nosso gestor não fez no momento correto a aquisição da vacina. E meus pais não receberam justamente por esse problema de meses atrás. A gente nunca imaginava que ia acontecer com a gente”, comenta.

Na entrevista, Simone ainda fez questão de alertar a população sobre a continuidade da doença. Ela criticou pessoas que não mantém os cuidados necessários e olham mais para a economia do que para a vida. Aos negacionistas, Simone, que perdeu os pais em curto intervalo de tempo, deixa o recado:

“Existe mesmo [a doença]. A gente assistia na televisão, achava que era coisa da Europa. Falo dos negacionistas, que não somos nós. Penso que realmente que, por conta do capitalismo, estamos sofrendo muito. Na hora de parar, não param. E a gente tá vivendo uma bola de neve. Não acredito que [a pandemia] está sob controle. Acho que o capital não se sobressai à lei divina. Se hoje perdi minha mãe, pode ser que aconteça com outras pessoas”, finaliza.





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