OPINIÃO


LUCAS VILLIGER




​As crônicas do amor e da felicidade


A tragédia do sentimentalismo e imediatismo no século XXI.

Adicionado em 15/09/2022 às 08:58:04

A felicidade

À procura da felicidade! Frase que intitula o grande filme de Hollywood protagonizado por Will Smith tem um grande significado na existência humana. Afinal, todos nós nos levantamos de manhã com esse objetivo, talvez não para realizá-lo no mesmo dia, mas a médio e longo prazo. Sim, todos nós queremos ser felizes, mas definir o que é felicidade pode ser mais difícil do que parece. 

Alguns teóricos defendem a ideia de que a felicidade constante não existe, que há somente momentos de felicidades ao longo da nossa trajetória. Outros, porém, defendem que a felicidade é um estado de espírito onde o indivíduo, independentemente da situação em que se encontra, consegue ser feliz em seu íntimo. 

Porém, é inegável que todos buscam a felicidade. Pode parecer uma palavra simples, mas ela está presente em documentos políticos e históricos importantíssimos. Em um trecho da Declaração de Independência do Estados Unidos, redigida em 1776, está escrito: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade”. 

A felicidade de um povo é tão importante, que foi colocada junto com duas palavras fundamentais da existência humana, onde temos o direito de nascer e viver livremente. Não obstante, a mesma situação foi descrita por José Bonifácio na carta que aconselhava Dom Pedro I a fazer a Independência do Brasil: “(…) eu, como Ministro, aconselho a Vossa Alteza que fique e faça do Brasil um reino feliz, separado de Portugal, que é hoje escravo das Cortes despóticas”.

Tanto para Bonifácio quanto para os pais fundadores americanos, a felicidade é um direito do ser humano, onde é necessário permitir que o mesmo tenha a liberdade de buscá-la. Ainda assim, sabendo da necessidade de cada pessoa ser feliz, nenhum deles foi exatamente claro no que se refere a palavra felicidade. Definir um país feliz realmente é algo muito abstrato e plural, vamos tentar então reduzir a proporção de pessoas para encontrarmos a definição de felicidade.

O escritor russo Léon Tolstoi, no livro Anna Karenina, define as famílias felizes e infelizes com a famosa citação: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Pode ser uma frase um tanto confusa, mas realmente é muito mais fácil definir a infelicidade do que a felicidade. A infelicidade é algo singular, oriundo de um acontecimento especifico e marcante na vida individual. 

No caso de Tolstoi, quando menciona as famílias, podemos pensar que uma família é infeliz por conta de um luto não superado, uma traição recorrente, uma situação financeira instável e inúmeros outros fatores. Já uma família feliz, quando colocamos em um imaginário comum, é uma família sem grandes problemas. Um ‘comercial de margarina’, onde há harmonia entre pais e filhos, com uma situação financeira minimamente estável. Não há, porém, situações tão distintas para definir uma família feliz.

Tendo isso em vista, conseguimos compreender o que G. K. Chesterton tenta nos explicar em sua afirmativa. “A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”, escreveu o jornalista. A felicidade está no ordinário, ou seja, nas coisas comuns, principalmente na ‘ordem’. Por isso ela é tão difícil de se descrever e ao mesmo tempo tão similar em suas definições. 

Sei que o conceito de felicidade pode ser diferente para cada indivíduo, mas não foge muito do habitual. A felicidade pode ser buscada em uma carreira profissional de sucesso, no imediatismo prazeroso e material (como festas, momentos de prazer ou aquisições materiais) ou em um grande amor (seja por um cônjuge ou pelos filhos). Dificilmente você vai encontrar respostas que fogem desses objetivos. 

O amor

É impossível não dizer que a felicidade está extremamente ligada na busca pelo amor, seja ele imediatista e sentimentalista ou em um amor matrimonial, ou seja, para a toda a vida (ou grande parte dela). Certamente você já viu a frase: “Eles se casaram e foram felizes para sempre” ou que o casamento é a resposta final da busca da felicidade. Sinto lhe informar, mas isso está completamente errado. 

O casamento não é felicidade, muito pelo contrário, é uma instituição e um dever constante. São duas pessoas caminhando lado a lado com objetivos distintos, porém tentando respeitar os sonhos individuais de cada um e renunciar suas próprias metas e objetivos em função do outro. O casamento é um dos desafios mais difíceis que uma pessoa pode enfrentar na vida, por isso está cada vez mais raro encontrar casais que não se divorciam. Sendo assim, neste trajeto, é necessário amor. Mas afinal, o que é amor?

Muitas pessoas enxergam o amor como um sentimento, mas está muito longe de ser isso. Sentir amor por alguém 100% do tempo é algo impossível. É muito comum ouvir um casal apaixonado em um momento de prazer proferir a frase “eu te amo”. Os estímulos nervosos, o prazer e a liberação de serotonina (o famoso hormônio da felicidade) despertam em nós um sentimento de carinho imenso pela pessoa causadora desse estado momentâneo. 

A ruína está exatamente neste ponto, iludir-se que o seu cônjuge vai te causar esse sentimento por toda sua vida. Por isso é comum ouvir das pessoas que o começo de qualquer relacionamento são flores e que depois o amor vai diminuindo e podendo até acabar. Por isso eu digo, engana-se o casal que acha que vai se amar (desta maneira) por toda sua vida. 

O fato do casal nos primeiros meses de namoro parecer tão felizes e apaixonados é simplesmente por conta de estarem experimentando momentos de felicidade causados um pelo outro pela primeira vez. Obviamente, há uma verdade que você já sabe, seu cônjuge não irá conseguir te fazer feliz todos os dias, afinal ele é só um ser humano. 

Pois te digo, você encontra o verdadeiro amor no erro e no defeito. Quando seu parceiro não consegue fazer nada certo, no dia que ele errar em tudo e mostrar seu defeito mais vergonhoso, se nesse dia você olhar para ele e dizer “eu te amo mesmo assim”, você estará vivendo o amor verdadeiro. Mas se você só consegue amá-lo quando ele acerta, possivelmente você não o ama, apenas ama a expectativa e ilusão que você criou nele.

Obviamente não estou dizendo que você deve ficar a todo custo em uma relação onde há mentiras, desrespeito, traições e agressões. Para haver amor verdadeiro entre as partes, ambos têm que cumprir minimamente seus deveres dentro da relação, para assim, mesmo nos erros, poderem se perdoar e continuar se amando e vivendo juntos.

“O verdadeiro amor chega na nossa vida no dia que o outro, sem dizer uma palavra, nos olha nos olhos e nos convence que nos ama, sem precisar dizer. Na vida, nós só temos o direito de dizer ‘eu amo você’ depois de termos dito infinitas vezes ‘eu perdoo você’. Por isso, antes de permitir que alguém entre na sua vida, tire sua ‘maquiagem’, para ele ver realmente quem você é e não amar uma ilusão”. – Padre Fábio de Melo

Walt Disney, em um texto, expressa com clareza sua visão sobre o amor. “Descobri que o amor é mais que um simples estado e enamoramento, ‘o amor é uma filosofia de vida’”, escreveu o cineasta. Esse é o ponto, quando você encara o amor como uma filosofia em sua vida você consegue vivê-lo em sua plenitude. 

Um casal é a união de duas pessoas que carregam dois adjetivos: amante e amigo. Posso dizer com tranquilidade que quando a paixão de namorados acaba entre os cônjuges, ainda é possível reestabeler a relação, porém quando a amizade acaba, dificilmente o relacionamento tem salvação. Por isso Disney reforça em seu texto: “Aprendi que o melhor triunfo é poder chamar alguém de amigo”. 

Por isso, nós conseguimos amar nossos pais, nossos familiares, nossos amigos, nosso cônjuge e nossos filhos. É nessa filosofia que nossos corações precisam se encontrar. Quando compreendemos o real significado do amor como filosofia, compreendemos também uma chave importante para buscar a felicidade tão desejada em nossas vidas. Na dúvida sobre o que é o amor, recorra sempre a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, na Bíblia Sagrada.

"Amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo. O amor jamais acabará." (1Cor 13,4-8)

O amor é complexo, tão complexo quanto a felicidade. Por isso é necessário compreendê-lo para vive-lo. Lembre-se: não se case para ser feliz, se case para gastar todas as suas forças tentando fazer seu cônjuge feliz. E acima de tudo nunca se esqueça: sem perdão não há amor.

“A coisa mais importante que um pai pode fazer por seus filhos é amar sua mãe” – Theodore Hesburgh

A tragédia do sentimentalismo e imediatismo

Século XXI. Parece que todos estão vivendo uma crise existencial e se perguntando qual é o caminho para encontrarem a felicidade plena. Em outros artigos já mencionei superficialmente os males do imediatismo no cotidiano. As pessoas buscam prazer e resultados muito rapidamente. Se erram ou fracassam, desistem. Se não atingem o sucesso em um determinado tempo, adoecem. As pessoas não estão vivendo o processo, mas sim querendo ver os resultados cada vez mais rápido. 

As pessoas querem um amor, querem a companhia de alguém e se sentirem amados. Um egoísmo enorme com o outro e um tiro no próprio pé. Elas buscam no outro um prazer momentâneo ou até mesmo criam ilusões e começam a enxergar no outro um ser perfeito, coisa que ninguém consegue ser. 

Atualmente, há dois tipos de pessoas no mundo. As que buscam alguém para se deitar no fim da noite e as que buscam alguém para se deitar todas as noites de sua vida. Porém, o mesmo erro perdura em ambas, buscar desesperadamente um amor te coloca no mesmo degrau de quem quer um caso passageiro. Pois em ambos os casos a pessoa está em busca da própria felicidade.

Quando alguém busca a todo custo outra pessoa para dividir a vida, esse alguém corre o risco de aceitar “qualquer coisa” e se decepcionar futuramente, pois a pessoa não será do jeito que ela idealizou. Esse é o perigo da ilusão do qual o Pe. Fábio proferiu anteriormente. Somente quando você estiver bem consigo mesmo poderá se unir a outra pessoa, pois como disse anteriormente, o casamento não é para lhe fazer feliz, mas sim para você fazer o outro feliz.

Por outro lado, há muito sofrimento nos corações que se banalizam. Você deve conhecer as pessoas que querem somente curtir e ‘conhecer’ várias pessoas. Porém, há um problema identificado por psicólogos nessa categoria de pessoas, em meio há multidões elas ainda sofrem um vazio em sua vida. Essa felicidade, por mais que seja mais fácil conseguir, ela dura pouco. 

O filósofo e professor Olavo de Carvalho discorreu sobre esse problema em uma de suas aulas. “Quando um homem e uma mulher se aproximavam, em geral, eles não estavam pensando em casamento, e só uma parte muito pequena de pervertidos queria sexo puro e simples. As pessoas queriam relação pessoal. Hoje eu só vejo as pessoas se aproximarem querendo duas coisas: ou sexo, ou casamento. Parece que a terceira coisa não existe mais”, disse o escritor. 

Por incrível que pareça a receita desse desespero por sentimentalismo imediado e resultados rápidos é simples: viver um dia de cada vez. Aproveitar as pessoas e as situações que compõem sua vida, sem segundas intenções. Você irá falhar, irá errar e irá se decepcionar, são coisas normais da vida. Não espere um casamento, o emprego dos sonhos ou qualquer outra coisa para ser feliz. Todos os dias há chances de você encontrar a felicidade e o amor. Então viva!
 

Lembrando que não estou aqui para bancar o moralista e dizer como cada um precisa viver sua vida. Cada pessoa sabe de si e do que precisa para ser feliz, o que estou fazendo é uma análise de um contexto generalizado em nossa sociedade atual. É perfeitamente possível que você leia esse artigo e discorde de mim. Na verdade, eu espero que isso aconteça, porque é necessário que haja diferentes pontos de vista sobre um tema especifico, para assim compreendê-lo melhor. Com certeza também haverá comentários sobre os autores que escolhi para ilustrar o assunto, neste caso respondo que todos os escritores têm ideias boas e ruins, logo sempre podemos aproveitar algo positivo em qualquer obra de qualquer pessoa.



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