OPINIÃO


LUCAS VILLIGER




A polêmica da camisa azul da seleção


Quando a ignorância entra em campo.

Adicionado em 20/03/2026 às 08:22:13

Há algo de profundamente revelador (e preocupante) na reação de parte do público à nova camisa away azul da Seleção Brasileira. Não, não se trata de uma discussão estética, que é absolutamente legítima. Gosto não se discute. Há quem tenha achado a combinação de azul com preto elegante, moderna, imponente — eu, particularmente, gostei bastante. Há quem torça o nariz para o escudo centralizado (ponto em que, aliás, faço coro às críticas), e há ainda a velha e justa reclamação sobre os preços altos. Tudo isso faz parte do jogo.

O problema começa quando o debate desce ao nível da infantilidade. E pior: da ignorância.

Grande parte das críticas não se concentra no design, mas em um detalhe específico: a presença da logo da Jordan Brand. E aí surgem pérolas como: “Estão homenageando um jogador americano na camisa da seleção brasileira” ou “Deveria ser o Pelé ali, não o Michael Jordan. É nesse momento que o debate abandona o campo da opinião e mergulha na desinformação.

Foto: divulgação Nike

Vamos ao básico: a silhueta de Michael Jordan não é uma “homenagem” inserida na camisa. Ela é, simplesmente, uma LOGO. Um símbolo comercial. Um elemento de branding. Nada mais. A mesma lógica vale para a vírgula da Nike, que estampa o uniforme da Seleção há décadas. Ou alguém realmente acredita que cada camisa do Brasil é uma ode filosófica ao fundador da Nike? A empresa é brasileira por acaso? Claro que não. E nunca foi um problema.

A crítica, portanto, não se sustenta. E pior: revela um desconhecimento básico sobre como funciona a indústria esportiva global.

Muito além de um tênis: a história da Jordan Brand

Para entender o tamanho da incoerência, é preciso voltar no tempo. A Jordan Brand não nasceu como um “símbolo do basquete americano”, mas como uma revolução no marketing esportivo.

Em 1984, a Nike fechou um acordo com um jovem e promissor jogador da NBA: Michael Jordan. No ano seguinte, nasceu o primeiro tênis da linha Air Jordan. O modelo rompeu padrões estéticos, com cores ousadas que desafiavam as regras da liga e também redefiniu a relação entre atleta, marca e cultura.



Décadas depois, o que começou como um tênis tornou-se um império. A Jordan Brand virou uma divisão independente dentro da Nike, com identidade própria, linguagem própria e, sobretudo, alcance global.

Hoje, não se trata apenas de basquete. A marca expandiu-se para o lifestyle, moda urbana e, sim, para o futebol. Clubes como o Paris Saint-Germain já vestiram uniformes assinados pela Jordan, em uma fusão entre esporte e cultura que conversa diretamente com as novas gerações.

Foto: divulgação PSG

E não, isso nunca foi visto como “uma homenagem ao basquete americano”. Foi visto como o que realmente é: estratégia de marca.

A cultura pop e o esporte caminham juntos

Para quem ainda tem dificuldade de compreender essa evolução, vale uma recomendação: o filme Air: A História por Trás do Logo. A produção mostra como a parceria entre Jordan e a Nike inaugurou uma nova era na indústria esportiva.


O que está em jogo aqui não é a substituição de ídolos brasileiros por estrangeiros — argumento tão raso quanto equivocado. Trata-se da inserção do futebol brasileiro em uma linguagem global de mercado, onde marcas dialogam entre si, cruzam fronteiras e constroem narrativas.

Crítica é válida. Ignorância, não

Repito: ninguém é obrigado a gostar da camisa. Eu mesmo tenho minhas ressalvas. O escudo centralizado não me agrada e o preço beira o absurdo. Mas transformar uma logo em símbolo de “desrespeito à história do futebol brasileiro” é um salto lógico que só se sustenta na desinformação.

Criticar o design? Justo. Debater tradição versus modernidade? Necessário. Questionar preços? Fundamental.

Agora, fazer tempestade por causa de uma logo amplamente consolidada no esporte mundial é, sim, infantilidade. Com requintes de ignorância. No fim das contas, talvez o problema não esteja na camisa. Mas na incapacidade de alguns de compreender que o futebol, assim como o mundo, mudou.

E continua mudando — com ou sem a aprovação de quem insiste em discutir o irrelevante.



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