OPINIÃO


SIMONE VIEIRA SARMENTO


Jornalista
Comunicadora/ Jornalista / Advogada





Famílias e as polêmicas do carnaval


Carnaval de 2026 gera debates intensos no meio político, religioso e judicial

Adicionado em 18/02/2026 às 11:54:26

O Carnaval de 2026 ficará marcado não apenas pelo brilho, a música e a energia que tomam as ruas em alguns estados do Brasil, mas também por um debate acalorado sobre família, valores e respeito que tomou conta das redes, dos jornais e das conversas de muitos brasileiros.

No desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no Carnaval do Rio de Janeiro, uma das alas trouxe uma representação que virou símbolo de toda essa polêmica: foliões vestidos como “famílias em lata de conserva”, uma crítica humorística ao conceito de família tradicional. Essa cena gerou reações intensas, principalmente nas redes sociais, onde parlamentares e líderes conservadores fizeram montagens e protestos, alegando que houve deboche e desrespeito às crenças e valores dessas famílias.

Ao mesmo tempo, vale lembrar que o desfile desse ano também incluiu uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva,  mostrando sua trajetória de vida desde a infância pobre até o Palácio do Planalto  e gerou questionamentos sobre a mistura de Carnaval e política em um ano eleitoral, com ações judiciais e debates sobre a possibilidade de propaganda antecipada.

Carnaval e os espaços de crítica

O Carnaval, historicamente, foi sempre um espaço de expressão cultural, social e até política. Ao longo dos anos, enredos e alas já abordaram temas como desigualdade, racismo, opressões sociais e debates políticos, muitas vezes de maneira incisiva e simbólica. Não é a primeira vez que uma alegoria levanta indignação ou reflexão  e dificilmente será a última. Essa tradição de crítica e sátira faz parte da própria história da festa mais popular do Brasil.

O que cada lado viu nessa representação

Para alguns, a representação foi apenas uma sátira social, uma crítica cultural legítima dentro de um contexto artístico e tradicional de debate no carnaval. Para outros, especialmente entre grupos mais conservadores e religiosos, a forma como símbolos e valores foram usados foi interpretada como ofensa ou zombaria direta a algo que consideram sagrado, levando até entidades como a seccional da OAB no Rio a emitir notas repudiando a cena sob a alegação de que isso se configuraria como intolerância religiosa.

O projeto de DEUS para as famílias

O projeto de Deus para a família é um modelo de amor, unidade e cuidado, uma expressão do Seu coração por nós,  mas foi a condição humana, com suas falhas e escolhas, que trouxe imperfeições e desafios a essa experiência. Se todos os seres humanos fossem gerados e criados em um ambiente de amor, respeito e afeto mútuo, quanta dor, traumas e feridas poderiam ser evitados? Certamente a vida adulta de muitos seria mais leve, mais segura, mais cheia de paz.

Mas.... a vida nem sempre nos dá esse começo perfeito. Nem todas as famílias, por diferentes razões,  tiveram a “sorte” de nascer em um ambiente cheio de afeto. Nem por isso essas famílias são menos dignas, ao contrário, precisam mais ainda de um olhar de respeito e acolhimento. E jamais devem ser alvo de escárnio público por isso.

Deus nos deu livre-arbítrio, a capacidade de pensar, escolher e agir,  mas Ele também nos ensinou que nem tudo convém ou edifica. E o que realmente edifica é o amor ao próximo, independentemente de crenças, formações familiares ou escolhas de vida.

Amor e respeito em primeiro lugar

O que deveria prevalecer neste debate  e em todos os debates públicos,  é o amor ao próximo, a compaixão, o respeito às escolhas que cada um faz e a coragem de olhar para pessoas e famílias com humanização, e não com risos ou desdém. Isso vale para os que se identificam com modelos tradicionais de família assim como para os que vivem outras formas de relação, outras histórias, outras realidades.

Discordar faz parte da democracia. Criticar faz parte da arte e da cultura. Mas debochar ou ridicularizar estilos de vida e valores significativos para milhões de pessoas provoca mais divisão do que diálogo, mais dor do que compreensão.

Em um ano eleitoral, onde emoções já estão à flor da pele, enxergar o outro como “inimigo” por causa de uma alegoria carnavalesca ou qualquer outra só aprofunda fissuras que tanto nos custam como sociedade.

O Carnaval continuará a ser festa, expressão, crítica e reflexão, assim como sempre foi. Mas nós, como sociedade, precisamos lembrar que liberdade de expressão e respeito mútuo não são antagônicos; eles devem caminhar lado a lado. Se queremos um país mais unido, mais compassivo e mais humano, precisamos escolher,  inclusive nas alegorias, nas sátiras e nas palavras,  promover a dignidade, o amor e o respeito para todos. 

Imagem gerada por IA



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