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Pessoas com deficiências superam desafios no mercado de trabalho


Eles mostram que podem vencer suas limitações e ter cada vez mais autonomia

Por Simone Vieira
13/12/2020 às 15h12 | Atualizada em 15/12/2020 - 10h40
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E pensar que na história da humanidade, os bebês que nasciam com alguma deficiência estavam condenados à morte ou eram abandonados. Na idade média os deficientes físicos ou mentais eram vistos como demônios e eram queimados como as “bruxas”. Os “filhos defeituosos” eram vistos como castigos de Deus. 

Foram necessários séculos para que movimentos fossem feitos com o objetivo de promover a Justiça e Inclusão social. Foi com Gerolamo Cardomo (1501 a 1576), médico e matemático que surgiu um código para ensinar pessoas surdas a ler e escrever, por meio de sinais. Esse método contrariou o pensamento da sociedade da época que não acreditava que pessoas surdas pudessem ser educadas.

No século XIX, Louis Braille (1809- 1852) criou o sistema de escrita “BRAILLE” usado por pessoas cegas até os dias de hoje. Foi no Século XIX com os reflexos das ideias humanistas da Revolução Francesa que se percebeu que as pessoas com deficiência não só precisavam de hospitais e abrigos, mas de atenção especializada. 

Atualmente no Brasil, as pessoas com deficiência recebem um benefício previdenciário. E com medo de que os filhos sofram discriminação, não consigam desempenhar as funções exigidas e venham a perder o benefício, muitas famílias preferem que os filhos permaneçam na proteção do lar. 

PCDs nas empresas de Concórdia 

Coopercarga

Para elaborar essa matéria, visitamos três empresas e nestas, as falas sobre os funcionários PCDs foram todas no mesmo sentido, eles são fantásticos e superam seus limites a cada dia.

Na empresa Coopercarga, tivemos a oportunidade de conversar, através da intérprete de libras, Carina Schoulten, com Dhyorgenes de Moura, 24 anos, que possui deficiência auditiva. Na oportunidade, esteve presente a advogada e gerente do setor jurídico da empresa, Sheila Ugolini. 

Dhyorgenes trabalha no setor jurídico há quase dois anos. “Quando o Dhy chegou aqui era uma pessoa fechada, mas agora não, ele se dá bem com todo mundo. Ele cadastra todos os processos em nosso sistema, lança informações. Arquiva os processos físicos, ele que treinou nosso menor aprendiz. Ele é muito esforçado, quer aprender outras coisas de outras áreas: na Fiscal, Frota, no RH. Ele é muito rápido, ele é muito concentrado e ele não quer ficar parado, não quer ficar na zona de conforto”, pontua a advogada. 



Sheila destaca que muitas vezes é difícil conseguir contratar os PCDs devido a superproteção das famílias. “Com a Lei de Inclusão, o Ministério Público fez um movimento para estimular as empresas a cumprir a legislação. E não só apenas as pessoas que nascem com alguma deficiência, mas aquelas que são reabilitadas pelo INSS, que sofreram acidente de trabalho, afastamentos, entre outras situações. Muitas vezes as famílias são resistentes de enviar essas pessoas para o mercado de trabalho, porque irão perder o benefício, por medo de que não se adaptem, sofram dificuldades de toda ordem”. 

Como explicou Sheila, para que Dhyorgenes  possa compreender as tarefas a serem realizadas é preciso dar condições de trabalho. “Ele se esforça pra entender, procuramos falar devagar, ele faz leitura labial e temos um  aplicativo interno que usamos para mostrar para ele o que ele precisa fazer. E não é só contratar os PCDs porque a lei exige, ou para cumprir a cota, é preciso dar condições de trabalho para eles. Quando tem palestras e treinamentos, contratamos uma intérprete para que ele também possa aproveitar o que está sendo oferecido, para que ele se sinta realmente incluído. É nós que devemos nos adaptar a ele, não ele a nós. É preciso empatia por parte de todos. Nós precisamos nos esforçar muito mais, nem todo mundo fica confortável com isso, é preciso você se colocar no nível dele”. 

Sobre como se sente trabalhando na empresa, Dhyorgenes demonstra muita alegria. “É muito bom trabalhar aqui, me sinto muito feliz, todos são muito compreensíveis e me ajudam a melhorar sempre. Trabalho aqui há dois anos e quero continuar daqui pra frente”. 

Nosso entrevistado descreve como se sentiu ao ingressar no mercado de trabalho. “Foi libertador. Consegui tirar a CNH, agora vou aproveitar mais a vida, passear. Quero aprender a dirigir caminhão. Fiz todo o Ensino Médio Integral no Vidal Ramos. Meu sonho é poder cursar Administração no ano que vem”. 

A empresa Coopercarga possui o projeto CooperAção há quase 4 anos. São 30 funcionários PCDs contratados, somente em Concórdia são 9 profissionais com deficiência visual, auditiva ou física. Currículos podem, ser enviados para o e-mail: vagaspcd@coopercarga.com.br


Pittol Calçados 


Rogério dos Santos (34), trabalha há 4 anos e meio na Pittol Calçados como repositor e atendente, possui deficiência auditiva leve em um dos ouvidos e no outro severa. “Aos oito meses, tive uma febre forte e perdi parte da audição”, destaca.

 Os elogios para o trabalho de nosso entrevistado vieram através da gerência da empresa. Conforme, Neusa Madalena Bassi, são três 3 PCDs contratados. “Temos funcionários com deficiência auditiva e visual. Quando eles começaram tivemos muitas dificuldades, mas depois vieram algumas pessoas que conheciam a língua dos sinais e ficou bem mais fácil. O Rogério tem muita facilidade de aprender, não precisa ficar chamando ele para fazer as coisas,  ele é mil. Ele faz faturamento, faz reposição. Sempre procuramos marcar reuniões com os três funcionários com deficiência juntos, assim eles se ajudam, e nas semanas da CIPA, contratamos um intérprete”. 



Conforme, a intérprete Carina, existem casos de surdez que são genéticos e outros não. “Existem mulheres que contraem Rubéola na gravidez e o bebê nasce surdo, existem casos de medicações que resultam em surdez ou cegueira. Por isso, falamos que existem os surdos oralizados e estes gostam de observar a boca das pessoas enquanto elas falam, pra fazer leitura labial, o que complicou muito na pandemia com o uso das máscaras”. 

Na empresa, Neusa conta que já aconteceram situações bem peculiares. “Uma vez uma cliente falava com ele e ele não respondia. Aí ela se irritou porque ele não dava atenção pra ela. Até que alguém viu e explicou que ele não ouvia. Aí ela pediu desculpas, que não sabia que ele era surdo e pensou que estava sendo ignorada”. 

 Rogério conta que sempre teve autonomia. “Dirijo desde os 18 anos. Só tenho dificuldade porque às vezes não ouço o barulho do telefone, se a pessoa fala muito rápido ou muito baixo. Pelo WhatsApp somente mensagem escrita, nada de áudios”. 

Pernambucanas

Vânia Gauger Schossler, gerente da Pernambucanas explica que possui um PCD que já faz 10 anos que atua na empresa.  “Temos o Gilmar Silvestro Coutinho (32), que é nosso Assessor de Vendas. Ele faz recebimento de mercadorias, organização da loja, ajuda no provador se alguém possui deficiência também, faz demarcação de preço, faz tudo na loja, todo o processo de sistema”, elogia. 

Gilmar possui deficiência auditiva desde o nascimento, é o que se designa por surdez genética. É casado com uma professora de libras, que também é surda e possui dois filhos surdos. “Em março vai fazer 10 anos que trabalho aqui. Quando se faz o que gosta, o tempo passa rápido e nem se percebe”, sinaliza. 

Sobre como se sente no mercado de trabalho Gilmar é categórico. “E se futuramente o governo não puder mais pagar esse benefício? Quem está no mercado tem experiência, tem anos de carteira, a pessoa em casa fica sempre no comodismo, não tem desenvolvimento. Vai chegar no futuro e não vai ter uma carreira, uma profissão e vai ficar sempre dependente de um benefício. Quando comecei a trabalhar cortaram meu benefício, eu disse que ia trabalhar e ia vencer pelo próprio esforço.  Tive até coronavírus, mas fiquei assintomático”, destaca.



Gilmar conta que morava em Bom Jesus do Sul na divisa com a Argentina, os pais sempre foram pobres, trabalhavam na roça, até que um dia ele conheceu a atual esposa, (Graci) na internet e se mudou para Concórdia. “Sempre precisei trabalhar, quando ganhava o benefício, ajudava a família. Quando me mudei para Concórdia meus pais me incentivaram a trabalhar e formar uma família”. 

Sobre o desempenho de Gilmar em suas funções, Vânia também é só elogios. “Ele é um funcionário ótimo, super pontual, tudo que a gente pede ele faz, está sempre disposto. Não temos habilidades em Libras, mas conseguimos nos comunicar, às vezes escrevemos palavras simples, pelo WhatsApp também é bom porque eles  se comunicam melhor pela escrita”. 

Sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia ele afirma que as principais barreiras são comunicacionais. “No médico, nem sempre a comunicação fica bem clara. Quando meu filho estava com febre foi difícil, mas tem que ter calma, tentar fazer gestos”. 




Associação de Pais e Amigos dos Surdos (APAS)


A APAS foi criada em 2005 em Concórdia. Neusa Martini, tradutora e intérprete de libras, atua há 18 anos na educação dos Surdos. Ela explica que a associação possui o foco na assistência social. “Possuímos um termo de fomento que é recebido todo ano pela assistência social do município. Para isso precisamos ter uma intérprete de libras, uma assistente social e um Auxiliar Administrativo”.

A sede da associação fica na rua Oswaldo Zandavalli, no Centro de Concórdia. Algumas crianças frequentam durante o dia e os adultos na quarta-feira à noite. O objetivo com as crianças é ensinar a Libras como primeira língua e o conhecimento da escrita da Língua Portuguesa para inclusão social. Com os adultos são várias atividades, palestras sobre mercado de trabalho, com psicólogos, jogos, oficina de informática, aprofundamento da Libras e possui intérpretes voluntários. 



Conforme Neusa, são 21 alunos entre crianças e adultos. “As empresas solicitam por e-mail indicações de pessoas, nos ligam e muitas vezes acompanhamos na entrevista, e no decorrer do contrato de trabalho quando os gestores possuem dificuldade de transmitir alguma informação ou orientação nos fazemos presentes. Cerca de 20 surdos estão no mercado de trabalho, nem todos encaminhados pela APAS. Quando eles solicitam nossa presença, somos o elo entre o surdo e o ouvinte. Mas, nosso objetivo é que eles se tornem cada vez mais independentes”. 

Graciela Coutinho, 41 anos, é Professora de Atendimento Educacional Especializado da rede municipal, ensina libras para os alunos surdos. É a primeira professora surda e com formação superior na área que atua em Concórdia.  Possui inclusive  pós-graduação em Educação Especial, dentre vários outras e cursos de aperfeiçoamento.  Possui esposo surdo (Gilmar, destaque acima), dois filhos surdos, Matheus 7 anos e a Camile com 4 anos. 

As professoras de Educação Infantil, Graci e Patrícia de Souza Casarotto do CMEI  Mundo da Criança

A entrevistada ingressou no mercado de trabalho, através de um projeto desenvolvido por Neusa Martini que é uma das intérpretes com mais tempo de trabalho nessa área. “Em 2004 fizemos um projeto na área educacional na Escola Estadual Olavo, para política de educação de surdos do estado. “Fizemos um projeto e mandamos para a Fundação, para estimular o surdos no mercado de trabalho, constava que podia ter várias pessoas pra serem instrutoras de libras. Desde 2005, temos Polos em Santa Catarina com turmas bilíngues, professora e a Graci como uma instrutora”. 

A professora Graci, como gosta de ser chamada, nasceu na comunidade de Presidente Kenedy e com dois anos foi perdendo a audição. “Tive uma febre muito forte. Na época falaram que foi uma picada de aranha, tomei uma medicação forte e fui perdendo a audição. Tenho surdez profunda”.  

Sobre como expressa suas vontades na hora de educar os filhos, Graci se diverte. “Através da expressão facial, o rosto mostra. Na expressão visual, imponho regras, limites. Num gestual mais sério”. 

Graci percebe as emoções com muita facilidade. “O surdo percebe muito mais a expressão corporal. O corpo fala. Uma respiração mais ofegante, focamos bastante o visual. A expressão facial e corporal é muito importante dentro do processo comunicativo de Libras”. 

A professora conta que falta empatia das pessoas, por isso, carrega vários traumas, sofreu muito bullying. “Na minha própria família, falavam as coisas e para mim diziam que não precisava falar, eu não precisava saber das coisas. Mas, com paciência isso já evoluiu bastante. Eu não gostava de ficar em sala de aula”. 

Com dois filhos surdos, Graci, se mostra preocupada, se os filhos irão encontrar professores qualificados para lhes ensinar, ela destaca que possui medo que os filhos sofram com os colegas, na hora de brincar,  se terão condições de interagir” lamenta. 


Situação dos professores de Libras em Concórdia 


Carina Schoulten que possui mais de 10 anos de experiência como professora e intérprete conta que se um ouvinte quiser se comunicar com uma pessoa surda deve escrever palavras mais simples, falar devagar, pode baixar o aplicativo Hand Talk que digita a palavra e ele faz o sinal em libras. 

Graci trabalha nas escolas onde têm surdos matriculados, ano que vem vai trabalhar na Escola do Bairro Santa Cruz, 20 horas por semana, onde terá três alunos surdos e 20h como ACT no Cmei Mundo da Criança, onde cuida de bebês ouvintes. 



Atualmente juntamente com todos os colegas ouvintes, na sala onde tem um aluno surdo tem que ter um intérprete. Carina e Maiara Andriolli desenvolveram um projeto para ensinar os colegas dos surdos, para poderem se comunicar com eles. São cinco alunos surdos hoje no município de Concórdia em idade escolar. 

Os alunos surdos recebem o conteúdo que os alunos ouvintes, mas com metodologia específica. São utilizados celulares, tabletes, muito material visual para associar com o sinal. A forma de alfabetizar é diferente.  Até onde se sabe, em Concórdia, existem apenas 3 profissionais que cumprem os requisitos legais para atuar como intérprete, com formação específica na área. 


Quais as principais causas da surdez?
 

A deficiência auditiva pode ser causada por fatores ambientais ou por fatores genéticos. As causas ambientais se dividem em duas: as infecções pré-natais causadas pelos microorganismos da Toxoplasmose, Rubéola, Citomegalovirose e Herpes e as infecções pós-natais, particularmente as meningites bacterianas causadas por Neisseria meningitidis, Haemophilus influenzae, ou Streptococcus pneumoniae, e a exposição a drogas ototóxicas.

A surdez de origem genética nos países desenvolvidos é responsável por 50% de todos os casos de surdez pré-lingual. No Brasil, o estabelecimento da vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) no calendário básico de vacinação, e a universalização da imunização contra o Haemophilus influenzae tipo b, permite supor que o mesmo fenômeno deverá ocorrer.


Qual o melhor período para a realização do teste?
 

Na impossibilidade da realização do mesmo em conjunto com o Teste do Pezinho, o ideal é que se faça o teste o quanto antes, permitindo a obtenção do diagnóstico até os 3 meses de idade e a intervenção para reabilitação até o 6º mês, garantindo a essa criança desenvolvimento muito próximo ao de uma criança ouvinte.

 
Como é realizado o Teste de Surdez Genética?
 

O Teste de Surdez Genética não é invasivo e é feito a partir de uma gota de sangue colhida em papel filtro, podendo ser realizado na mesma amostra destinada ao Teste do Pezinho convencional ou ao Teste do Pezinho Expandido sendo utilizada a metodologia conhecida como PCR (Polymerase Chain Reaction).


Fontes

https://www.ouviclin.com.br/surdez/surdos-oralizados

https://dle.com.br/diagnosticos-por-biologia-molecular/eim-e-outras-doencas-geneticas/60-teste-de-surdez-genetica#:~:text=Aproximadamente%2070%25%20dos%20casos%20de,ou%20altera%C3%A7%C3%B5es%20do%20DNA%20mitocondrial.

https://siteantigo.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/direito/retrospecto-historico-da-pessoa-com-deficiencia-na-sociedade/48757

https://www.coopercarga.com.br/secoes/conteudos/lang/pt-br/link/inclusao-de-pcds~70


Agradecimentos

A professora e intérprete de libras, Carina Schoulten da empresa Via Libras, que nos possibilitou a comunicação em todas as entrevistas.  




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