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Especial

Culpas que as mães carregam


Sobrecarga, pressão interna e externa, turbilhão de sentimentos

Por Simone Vieira
08/05/2022 às 08h54 | Atualizada em 09/05/2022 - 15h12
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Nunca se discutiu tanto a maternidade sob vários aspectos. As redes sociais deram voz a muitas genitoras para falar sobre vários assuntos como: a romantização de processos,  as cobranças internas e externas, pensão alimentícia, produção independente, entre vários outros. 

Neste domingo, nossa reportagem conversou com duas profissionais que dialogam muito bem com esse público tanto online como offline. A primeira delas é a psicóloga, Cristiane Colossi de Oliveira Nissola, especialista em Terapia Cognitiva e mãe da Antonella (7), a segunda é a médica pediatra, Dra. Jôse Gonçalves de Souza Savi e mãe do Theo (2). 


Maternidade do Ponto de Vista da Psicologia


A psicóloga, Cristiane, relata que teve de voltar ao trabalho quando a filha tinha apenas 3 meses. “Eu deixava a Antonella com minha mãe, meio período, e tive que voltar ao trabalho. Minha mãe nos deu um suporte muito legal. Com um aninho, minha filha foi para escola em período integral”.

Quem nunca se perguntou, como as mães das gerações passadas davam conta, com cinco, dez filhos. Conforme a psicóloga, “os tempos atuais trouxeram mais facilidade, mas novos desafios em relação a maternidade, dar conta da casa, dos filhos, da família, da carreira, continuar sendo esposa, filha, amiga, são muitos papéis. Na gravidez é tudo lindo, é um turbilhão de sentimentos juntos, depois vem o medo de não dar conta, culpa, cansaço, solidão, mudança hormonal, mudanças físicas, estilo de vida.  Essa mulher não se torna só mãe”. 



Cristiane lembra que o desafio da maternidade sempre existiu. “Ele só não era tão falado porque não havia internet, mas se você perguntar para as mães das gerações anteriores, com certeza elas vão relatar inúmeras dificuldades. Hoje com as redes sociais, com a internet ficou mais fácil em alguns aspectos, temos facilidades como: vídeos ensinando a fazer determinadas situações, terapia online, temos ferramentas para tornar a vida mais fácil. Mas, pode até ter mudado a tecnologia, a geração, o nosso tempo, mas uma coisa nunca mudou -  é o amor incondicional da mãe para com o filho. Se tem amor, não tem nada que supere o amor”.

Nestes 15 anos de psicologia clínica, Cristiane conta que são várias situações relatadas por suas pacientes. “Os maiores conflitos com certeza surgem na adolescência. A maioria das mães nos procuram nessa fase. Mas, é preciso salientar que as mães se cobram muito para dar conta de tudo, casa, marido, trabalho, às vezes não precisamos dar conta de tudo. É preciso pedir ajuda. Querer dar conta de tudo, pode sim prejudicar sua saúde mental. Entenda isso e sua vida vai ficar mais leve no trabalho, no relacionamento com seus filhos, sua família, com seu marido”.

Um dos relatos mais comuns, é que a demanda é muito grande quando a criança ainda é pequena. “A mulher não precisa chegar no limite para pedir ajuda do pai da criança. A rotina da família precisa ser adequada para que ambos possam continuar tendo qualidade de vida.  A mulher precisa de espaço pra sair, se divertir, se cuidar, manter a autoestima elevada, precisa de seu tempo”.

A psicóloga destaca que quando a criança nasce, os familiares devem ficar muito atentos a nova mãe. “Todo mundo foca no bebê e esquece da mãe. As alterações hormonais devem ser observadas com cautela. O Baby Blues, não chega a ser uma Depressão, mas uma alteração de humor, melancolia, sensação de incapacidade ou medo de não dar conta. Já a Depressão tem período maior de durabilidade. O Baby Blues são sintomas depressivos, o tempo de durabilidade é menor. Em muitos casos é preciso auxílio da Psiquiatria,  quando a mãe possui Depressão Pós-Parto, no Baby Blues com terapia já se pode ter um bom resultado”.

Para encerrar, a psicóloga relata que uma coisa que jamais as mães devem fazer é ficar se comparando. “É preciso lutar contra esse sentimento, esse pensamento de ficar se comparando com outras mães: olha fulana está sempre bonita, com unha feita, emagreceu super rápida, é preciso entender que nem sempre conseguimos estar com a casa limpa, estarmos bonitas. Busque equilibrar seus papéis. Procure não se cobrar demais e passar por isso com leveza, afinal seu intuito é sempre dar o melhor para seus filhos”.

A psicóloga conta que um dia, no isolamento social, durante a Pandemia, a filha Antonella, assistindo a um filme, falou para mãe que o Coronavírus era muito legal, porque elas podiam comer pipoca e assistir filme juntas. “Através dessa fala da Antonella percebi que precisava mudar. Tanto que readequei minha vida pra passar mais tempo com ela e isso fez toda a diferença, ela mudou o comportamento, afetiva e cognitivamente ela melhorou muito. Ela não vai ser criança pra sempre, mas eu vou ser mãe pra sempre. Precisei ouvir isso dela, pra mudar minha rota novamente e está tudo bem. A gente se adapta em nossos vários papéis”. 

Cristiane afirma que só é possível equilibrar os papéis que a mulher desempenha, quando ela desacelera na cobrança interna. “É preciso entender que a maioria das mães passa por isso, mas se você quer fazer a diferença na criação de seu filho, crie boas memórias. Ofereça tempo de qualidade, esteja presente de corpo, alma e pensamento, não no celular, se conecte inteiramente com a criança. Procure saber do que ela gosta, um jogo, uma massinha, pintar. Entenda a fase que seu filho está e faça com ele o que ele tem interesse. O tempo que você tiver, que seja um tempo de qualidade, quando ele crescer, é isso que ele vai lembrar. Ele não vai lembrar do tênis de R$ 300 reais que você deu, mas o que vocês faziam juntos. As crianças em tendências de enfatizar memórias negativas, se o pai e a mãe eram agressivos, se eram estressados, se gritavam, se batiam, então crie boas memórias nos seus filhos”.  




Maternidade do Ponto de Vista da Pediatria


A Dra. Jôse como é conhecida, possui uma leveza muito grande ao falar sobre a maternidade, principalmente em suas redes sociais. “Eu sou autônoma, e quem não trabalha, não recebe. Quando o Theo nasceu, o  retorno ao trabalho foi quase impossível. Precisei trabalhar quando o Theo tinha 2 meses de vida. Até achar uma babá, eu chorava direto, ordenhava, deixava o leitinho dele pronto, pra não dar fórmula”. 

A pressão externa foi muito grande conforme a médica. “Sempre fui muito questionada: você uma médica, deixando teu filho com dois meses, isso me deixava muito sensibilizada, sentia culpa, mas é preciso ter alguém pra dividir as responsabilidades, pra auxiliar, isso ajuda muito, o pai, a mãe, a vó”. 

Conforme a médica, a principal culpa que as mães relatam é a incerteza. “A principal culpa é não ser capaz de cuidar. Enquanto está dentro da barriga, está tudo bem. Nasce a criança, nasce a insegurança. A ficha só cai no pós-parto, no terceiro dia, quando você vai pra casa. No hospital você tem médico, enfermeiro, técnico, pra te ajudar, em casa é você e a criança. Às vezes a mãe não consegue amamentar, não consegue fazer a higienização correta, aí surge o medo de não ser capaz de cuidar daquele bebê. As alterações hormonais chegam e deixam as mães muito sensibilizadas”. 

A pediatra lembra que o pai, a família precisa se preparar muito pra ajudar a mãe. “Tem que estar preparado, pra troca de fralda, levantar, embalar, dar banho. Isso ajuda a mãe que precisa de atenção tanto quanto o bebê. No retorno ao trabalho, os pais já devem estar preparados, se levar para a creche é normal aumentar o risco de infecções”. 

O mundo ideal é uma coisa, o real é bem diferente. “No mundo ideal, as crianças deveriam ir pra creche com dois anos, no mundo real isso é bem pouco provável. Cada um sabe onde seu calo aperta. É preciso voltar ao trabalho, deixar com cuidador, precisa saber que a criança vai ter problemas com infecções mais recorrentes, que não tem remédio pra imunidade. É preciso saber que a mãe precisa trabalhar e não está sendo negligente. Às vezes elas nos dizem: mas eu cuido tanto, mas não é culpa da mãe, é normal. Tem que ir trabalhando desde o começo, com quem vai ficar seu filho, já leva ele pra adaptar, estar no colo de pessoas diferentes, precisa criar vínculo com a professora, com a escola, esse desapego é muito mais da mãe do que do bebê. O bebê aprende fácil, mas a mãe precisa se sentir segura com a escola, a creche, a profe”. 

A médica relata que as mães de primeira viagem buscam fontes, por muitas vezes não confiáveis. “Cada família é uma realidade. As mães de primeira viagem, buscam muito na internet, e nem sempre são fontes confiáveis. Por exemplo, uma criança de  0 a 6 meses chora pelo menos 3 horas por dia, o bebê regurgitar é normal, a partir dos 6 meses quando ela começa a ter alimentação sólida que começa a melhorar”. 

A expectativa e a realidade são bem diferentes. “As mães devem entender que o vínculo com o bebê é construído quando ele chora e é acolhido em suas necessidades, ele precisa de atenção, colo, brincar. Independentemente do tipo de parto, se mamou no peito ou teve que dar fórmula, se usa fralda descartável ou ecológica, nada substitui o vínculo que a mãe constrói quando o bebê é acolhido em suas necessidades”. 





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